Há verdades que te tocam mais fundo do que qualquer boca. E foi isso que testemunhei, um beijo sem lábios, mas com impacto.
Ela era uma pessoa cuidadosa demais. Cuidava do que dizia. Cuidava do que sentia. Cuidava até do espaço que ocupava, como se estivesse sempre a pedir autorização para existir.
Um dia, numa conversa simples, alguém largou uma frase que lhe atravessou o peito: “Tu vives como se tivesses medo de te ouvir.”
Não foi dito com arrogância. Foi dito com precisão. E aquela frase entrou nela como um choque, o verdadeiro beijo profano. Aquele que não seduz. Aquele que desperta.
Ela ficou imóvel. Sentiu vergonha. Sentiu raiva. Sentiu verdade. E percebeu que estava a viver em modo silencioso, como quem tenta não incomodar o mundo.
A mudança começou pequena. Disse não a uma coisa que a drenava. Disse sim a uma coisa que a chamava. Falou sem pedir desculpa. E, devagar, começou a recuperar a própria voz.
O inesperado? As pessoas passaram a ouvi-la de forma diferente. Não porque ela gritasse. Mas porque já não se escondia.
O valor prático desta história é claro. Às vezes, o que te transforma não é o amor, é o abalo. Não é o beijo romântico, é o beijo profano. Aquele que te obriga a acordar para ti.
— Filipe de Luar

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