Aprendi isto num instante: há pessoas que, sem ver, enxergam-te melhor do que tu próprio.
Estava numa paragem de autocarro, num daqueles dias em que a cabeça pesa mais do que o corpo. A pressa, a ansiedade, a lista infinita de coisas por fazer, tudo em cima de mim.
Ao meu lado, um homem cego. Quieto. Sereno. Como se o mundo não lhe faltasse nada.
Sem me ver, disse: “Está a respirar como quem está a fugir.”
Fiquei imóvel. Não era julgamento. Era precisão. Era alguém a ler-me sem precisar de olhos.
Começámos a conversar. Ele contou-me que, depois de perder a visão, ganhou outra coisa: atenção. Disse que passou a ouvir o que os outros escondem. O tom das vozes. O peso dos silêncios. A velocidade dos passos. A forma como as pessoas carregam o mundo no peito sem perceber.
E largou uma frase que ficou a morar em mim: “Quem não vê, aprende a perceber.”
Nesse momento percebi o valor prático daquela conversa.
Eu via tudo, mas percebia pouco.
Ele não via nada, mas percebia tudo.
A partir desse dia, comecei a fazer uma coisa simples: Abrandar. Ouvir antes de reagir. Respirar antes de decidir. Prestar atenção ao que o corpo diz quando a mente se cala.
O inesperado?
Ao abrandar, comecei a ver melhor.
Não o mundo, mas a mim.
— Filipe de Luar

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