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Três Capítulos de Luz e Areia

O Mundial de ontem não foi apenas uma sucessão de jogos, foi um romance em três capítulos, cada um escrito com uma tinta diferente, cada um a respirar uma emoção própria. O futebol, esse velho poeta que insiste em transformar relvados em páginas e jogadores em personagens, voltou a lembrar-nos que há dias em que o desporto se aproxima perigosamente da literatura.

Portugal entrou em campo como quem carrega uma saudade antiga no peito, aquela saudade que não tem dono, que não tem tempo, que só sabe empurrar o corpo para a frente. Havia fado nos passos, havia teimosia nos olhos, havia a promessa silenciosa de que, quando a bandeira se ergue, o país inteiro se ergue com ela.
A Espanha, por sua vez, trouxe o sol. Não o sol quente do verão, mas o sol disciplinado das catedrais, o sol que ilumina sem se apressar, o sol que sabe que a beleza também pode ser método. Entraram com a bola como quem segura um segredo antigo.
O jogo começou como um encontro de almas: Portugal a tentar incendiar, Espanha a tentar controlar o incêndio. E, por instantes, o relvado pareceu um palco onde duas formas de amar o jogo se tocavam sem se anularem.
Houve momentos em que Portugal jogou como quem escreve poesia com o peito aberto. Houve instantes em que Espanha respondeu com prosa firme, organizada, quase matemática. E no meio desta dança, o golo surgiu como um verso inesperado, daqueles que mudam o rumo de um poema.
No fim, ficou a sensação de que Portugal jogou com o coração e Espanha com a memória. E que ambas, memória e coração, saíram do relvado mais vivas do que entraram.

Os Estados Unidos entraram em campo como quem corre atrás de um sonho que ainda não sabe nomear. Havia velocidade, havia ambição, havia aquela energia quase adolescente de quem acredita que tudo é possível se for feito depressa o suficiente.
A Bélgica trouxe outra coisa: trouxe o silêncio. Um silêncio maduro, cheio de cálculo, cheio de geometria. Jogavam como quem desenha linhas invisíveis no relvado, como quem sabe que a beleza também pode ser encontrada na precisão.
O jogo começou com os Estados Unidos a tentar rasgar o campo com corridas longas, quase desesperadas. A Bélgica respondia com passes curtos, frios, cirúrgicos, como quem desmonta um relógio peça a peça.
Houve momentos em que o jogo pareceu uma conversa entre dois mundos: um que grita, outro que pensa. E, no entanto, o futebol tem esta mania de ser humano, não escolhe sempre o mais rápido, nem o mais calculado. Escolhe o que o instante pede.
E ontem, o instante pediu coragem.

A Argentina entrou como quem carrega um país inteiro nos ombros. Havia tango nos movimentos, havia tempestade nos olhos, havia aquela melancolia luminosa que só os argentinos parecem dominar, uma tristeza bonita, que não pesa, que inspira.
O Egipto trouxe o deserto. Não o deserto vazio, mas o deserto cheio de mistério, cheio de resistência, cheio de histórias que se contam ao vento. Jogavam com uma calma antiga, quase faraónica, como quem sabe que o tempo é uma arma.
O jogo começou com a Argentina a tentar transformar cada ataque numa narrativa épica. O Egipto respondia com uma serenidade que parecia feita de areia e eternidade. E, por instantes, o relvado tornou-se um lugar onde o mito e o deserto se encontravam sem se estranharem.
Houve momentos em que a Argentina jogou como quem dança à beira de um abismo. Houve instantes em que o Egipto respondeu como quem ergue uma pirâmide com as mãos. E o golo, quando veio, pareceu uma revelação, uma espécie de milagre pequeno, mas suficiente.

  • Filipe de Luar

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