Anúncios
Anúncios

Sonho em Campo

O dia no Mundial amanheceu como quem desperta de um sonho inquieto, com o coração ainda a bater depressa, com a alma suspensa entre o que já aconteceu e o que ainda pode ser. O futebol, esse velho poeta de chuteiras gastas, voltou a escrever versos no relvado, e nós, pobres mortais, limitámo-nos a segui‑lo, como quem segue uma estrela que não sabe se é guia ou miragem.

O Brasil entrou em campo como quem traz o verão dentro do peito. Havia samba nos passos, havia promessa nos olhos, havia aquela teimosia luminosa de quem acredita que o futebol é uma forma de oração. A Noruega, por sua vez, parecia feita de silêncio e montanhas, uma equipa que carrega no corpo a memória dos fiordes, a disciplina das noites longas, a serenidade de quem sabe que o frio também é uma forma de coragem.
O jogo começou como um encontro improvável entre duas estações do ano. O Brasil tentava dançar; a Noruega tentava congelar a dança. E, por instantes, o mundo pareceu dividido entre o calor que insiste e o gelo que resiste.
Mas o futebol, esse caprichoso deus menor, gosta de brincar com contrastes. Houve momentos em que o Brasil perdeu o compasso, como um bailarino que tropeça no próprio entusiasmo. Houve instantes em que a Noruega, com a sua calma de inverno, quase fez o tempo parar. E no meio dessa batalha de climas, o golo — seja ele brasileiro ou norueguês — surgiu como um raio que rasga o céu sem pedir licença.
No fim, ficou a sensação de que o Brasil jogou com o coração e a Noruega com a alma. E que ambas, coração e alma, saíram do relvado um pouco mais cansadas, um pouco mais vivas.

Se o primeiro jogo foi um choque de estações, o segundo foi um choque de temperamentos. O México entrou como quem traz uma chama antiga acesa no peito, uma chama que não se apaga com o vento, nem com a dúvida, nem com a sombra. A Inglaterra, por outro lado, trouxe consigo a névoa dos seus campos verdes, aquela elegância contida, quase tímida, que só revela a sua força quando menos se espera.
O jogo começou com o México a incendiar o relvado. Cada ataque era uma faísca, cada passe uma promessa de combustão. A Inglaterra respondia com a calma de quem sabe que a névoa não se apressa, envolve, cobre, confunde, e só depois revela o que guarda.
Houve momentos em que o México parecia escrever poesia com os pés, versos rápidos, intensos, quase desesperados. A Inglaterra respondia com prosa firme, organizada, como quem constrói uma ponte enquanto o adversário tenta acender fogueiras.
E, no entanto, o futebol tem esta mania de ser humano: não escolhe sempre o mais forte, nem o mais bonito, nem o mais justo. Escolhe o que o momento pede. E ontem, o momento pediu emoção, aquela emoção que nos faz prender a respiração, que nos faz esquecer que estamos sentados, que nos faz acreditar que o impossível é apenas uma palavra mal escolhida.

  • Filipe de Luar

Deixe um comentário