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Dor que fala

A verdade é esta: há dias em que a alma não aguenta mais. Não grita. Não esperneia. Só… chora. E ninguém vê.
Estava a meio de uma conversa banal quando senti aquele aperto silencioso, o tipo de dor que não pede licença. Aquela sensação de que algo dentro de nós está a partir-se devagar, sem fazer barulho, como vidro a rachar por dentro.
Fiquei ali, imóvel. Por fora, normal. Por dentro, um caos.
E percebi uma coisa simples, mas difícil de aceitar: A alma não chora por fraqueza. Chora por saturação. Chora porque carregou demasiado tempo aquilo que não devia carregar. Chora porque ninguém nos ensinou a pousar o peso antes de ele nos esmagar.
A alma chora quando já não sabe como pedir ajuda. Quando já não sabe como explicar o que dói. Quando já não sabe como continuar a ser forte.
E nesse momento, em vez de fugir da dor, fiz o contrário: parei. Respirei. Olhei para dentro. E perguntei a mim mesmo: “O que é que ainda estou a tentar aguentar sozinho?”
A resposta veio rápida. Crua. Honesta. E libertadora.
Porque às vezes, o que nos salva não é ser forte.
É admitir que já não conseguimos ser.

— Filipe de Luar

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