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O espelho não conta tudo

Há momentos em que olhamos para nós como quem olha para um espelho embaciado: vemos qualquer coisa, mas não vemos tudo. Vemos a superfície, mas falta sempre aquela parte que só sentimos por dentro.
E é estranho crescer neste tempo. Um tempo rápido, cheio de opiniões, cheio de pressões, cheio de versões de nós que nem sempre reconhecemos. Um tempo onde toda a gente parece saber quem é… e nós, às vezes, nem sabemos por onde começar.
O espelho que somos não mostra só o que está pronto. Mostra o que está a nascer, o que ainda está a ser construído, o que tentamos esconder porque achamos que não é suficiente. Mas é. É suficiente porque é verdadeiro.
Há dias em que nos sentimos alinhados, inteiros, quase brilhantes. E há outros em que tudo parece fora do sítio, pensamentos, emoções, expectativas. E está tudo certo. Ninguém vive sempre focado, sempre forte, sempre seguro. A vida real não funciona assim.
O espelho que somos também guarda o que não mostramos: as dúvidas que nos acompanham, as comparações que nos cansam, as perguntas que não sabemos responder, as partes de nós que ainda não sabemos como encaixar.
Mas é nesse reflexo imperfeito que crescemos. É quando admitimos que não sabemos tudo. É quando percebemos que mudar não é falhar. É quando aceitamos que estamos sempre em versão beta, a melhorar, a ajustar, a aprender.
E talvez seja isso que nos torna humanos: a capacidade de nos olharmos com honestidade, de reconhecermos o que dói sem vergonha, de valorizarmos o que já conquistámos, de acreditarmos no que ainda podemos ser.
No fim, o espelho não serve para julgar, serve para lembrar. Lembrar que és mais do que o que mostras. Mais do que o que os outros pensam. Mais do que o que consegues explicar.
És processo. És caminho. És mudança. És o espelho que se descobre enquanto vive.

— Filipe de Luar

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