No peito bate um vazio que não avisa. Não chega com estrondo, não faz barulho, não pede licença. Apenas aparece, como aquela sensação estranha de entrar em casa e perceber que algo mudou, mesmo que tudo esteja no mesmo sítio.
Lembro-me de uma tarde em que isso me aconteceu. Estava rodeado de pessoas, conversas, ruído, planos… e, ainda assim, senti-me como quem observa a vida através de um vidro. Tudo perto, mas nada a tocar-me. É um momento silencioso, quase secreto, em que percebes que o mundo continua a andar, mas tu ficas parado por dentro.
O mais inesperado é que este vazio não é sempre sinal de perda. Às vezes é sinal de espaço. Um espaço que se abre quando já não cabe ali aquilo que carregavas. Um espaço que te obriga a olhar para dentro e perguntar: o que é que falta, afinal? E essa pergunta, por mais desconfortável que seja, é o início de qualquer mudança verdadeira.
Há quem tente preencher o vazio com pressa, distrações, barulho. Eu fiz isso durante anos. Até perceber que o vazio não queria ser tapado, queria ser entendido. Porque o vazio não é ausência. É aviso. É o corpo a dizer que já não estás onde devias estar. É a vida a pedir-te que pares, que olhes, que escolhas outra coisa.
E quando finalmente te sentas com esse vazio, sem fugir, sem disfarçar, descobres algo inesperado: ele não te quer pequeno. Ele quer-te honesto.
— Filipe de Luar

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