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Ausência viva

Ele só percebeu uma coisa quando deixou de a ter por perto: a ausência não é silêncio, é informação.
Durante muito tempo, habituou-se à presença dela. Às mensagens rápidas. Às conversas curtas. Àquela sensação de que, mesmo longe, estava sempre ali. E foi por isso que não reparou no mais importante, a ausência começou antes de ela partir.
O inesperado aconteceu num dia banal. Ele enviou uma mensagem. Nada de especial. E, pela primeira vez, não houve resposta. Horas passaram. Depois dias. E ele percebeu que a ausência não dói pelo vazio, dói pela mudança.
Começou a reparar em detalhes que antes ignorava. O silêncio que substituiu a rotina. A falta de perguntas. A ausência de interesse. A forma como o mundo continua, mesmo quando alguém deixa de caminhar ao teu lado.
E foi aí que entendeu o valor prático da ausência. Ela mostra-te o que a presença escondia. Mostra-te o que ignoraste. Mostra-te o que já não existe. Mostra-te quem realmente está contigo e quem só estava por hábito.
A ausência ensinou-lhe algo simples. Quando alguém se afasta, não te tira chão. Tira-te ilusões. E isso, por mais que custe, é libertação.
A partir desse momento, fez uma escolha prática. Em vez de correr atrás da presença perdida, começou a cuidar da presença que lhe faltava, a dele próprio. E, devagar, a ausência deixou de ser dor e passou a ser espaço. Espaço para crescer. Espaço para ver melhor. Espaço para seguir.

— Filipe de Luar

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