Começo com uma frase que não se diz por acaso. “No meu regaço.” E fiquei a pensar no peso real destas palavras, porque ninguém oferece o regaço sem história, sem marcas, sem memória.
Lembro-me de uma situação simples, humana, inesperada. Uma pessoa estava a atravessar um daqueles dias que nos tiram o chão. Nada dramático, mas tudo acumulado. O tipo de dia em que o corpo aguenta, mas a alma pede intervalo.
Sentámo-nos num banco de jardim. Ela respirou fundo, olhou para mim e disse. “Só preciso de pousar um bocado.”
E pousou. Não no meu ombro, não nos meus braços, pousou no meu regaço emocional. Onde o silêncio não pesa. Onde o mundo abranda só o suficiente para a pessoa voltar a si.
O inesperado? Ela não queria soluções. Não queria conselhos. Não queria respostas. Queria presença. Queria chão. Queria um lugar onde pudesse existir sem ter de provar nada.
E foi aí que percebi o valor prático desta história. Às vezes, o maior gesto não é levantar alguém, é ser o lugar onde essa pessoa pode pousar.
No meu regaço não é sobre proteção. É sobre pausa. É sobre humanidade. É sobre permitir que alguém descanse o peso que carrega, nem que seja por cinco minutos.
E há uma verdade que aprendi nesse dia. Quem te procura para pousar não está a pedir que carregues a vida dela, está a confiar que não a deixas cair.
— Filipe de Luar

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