Um dia percebi que a literatura não é feita de palavras. E a arte não é feita de tinta.
São feitas de pessoas. E isso muda tudo.
Lembro‑me de estar sentado num banco de jardim, a ler um livro que já tinha lido. Não era pela história. Era pela sensação estranha de que alguém, algures no tempo, tinha sentido o mesmo que eu e decidiu transformar isso em algo que pudesse ser tocado.
Ao meu lado, um miúdo desenhava no chão com um pau. Linhas tortas, círculos imperfeitos, rabiscos que não faziam sentido nenhum. Mas ele sorria como se estivesse a criar o mundo do zero. E naquele instante percebi: aquilo era arte pura. Sem filtros. Sem medo. Sem a obsessão de “ficar bonito”.
A literatura e a arte fazem isto. Mostram‑nos que o que sentimos não é um erro. Que o que pensamos não é absurdo. Que o que criamos, pode ser a ponte entre nós e alguém que ainda nem conhecemos.
O miúdo levantou‑se, olhou para o desenho e disse: “Não está perfeito, mas gosto.” E foi embora, leve, como quem sabe algo que os adultos esquecem.
Fiquei ali a olhar para o livro e percebi que a perfeição nunca foi o ponto.
O ponto é criar algo que nos sobreviva.
Algo que diga: “Eu estive aqui. E senti isto.”
— Filipe de Luar

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