Já não consigo olhar para nada e não é drama. É cansaço. É aquela sensação estranha de viver num mundo tão cheio que, de repente, fica vazio. Como quando abres o telemóvel para “ver só uma coisa” e acabas a olhar para tudo… sem ver nada. A mente fica tipo ecrã com brilho no máximo, mas sem imagem.
Parece que estamos todos a viver numa espécie de loop: correr, produzir, mostrar, provar, repetir. E no meio disto tudo, esquecemo-nos de sentir. De reparar. De respirar. De existir com calma.
A verdade é que a realidade actual está a sugar-nos a atenção como se fosse um aspirador emocional. Tudo é urgente, tudo é rápido, tudo é “agora ou nunca”. E nós? Nós ficamos ali, meio desligados, meio presentes, meio perdidos. A tentar acompanhar um ritmo que ninguém pediu, mas toda a gente segue.
E quando dizes “já não consigo olhar para nada”, no fundo estás a dizer: “Preciso de voltar a ver.”
Ver com alma. Ver com pausa. Ver com intenção. Ver o que importa, e não só o que aparece.
Porque a vida não é um scroll infinito. A vida é aquilo que acontece quando finalmente paramos o dedo.
E talvez seja isso que falta: parar. Parar para sentir outra vez. Parar para voltar a olhar para as coisas como se fossem novas. Parar para perceber que ainda há beleza, mesmo quando tudo parece cinzento.
A realidade está pesada, sim. Mas nós não temos de carregar o mundo inteiro às costas. Às vezes basta pousar o telemóvel, abrir a janela, respirar fundo e lembrar: Ainda estamos aqui. Ainda dá para recomeçar. Ainda dá para ver.
E quando voltares a ver… vais perceber que nunca tinhas deixado de ser tu. Tinhas só deixado de olhar.
— Filipe de Luar

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