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Não sei escrever poemas, sei ficar

Eu não sabia escrever poemas de amor. E, para ser sincero, ainda não sei. Mas aprendi outra coisa: no meio deste caos que chamamos “realidade actual”, o amor já não é só sobre beijos, flores ou finais felizes. É sobre sobreviver. É sobre sentir. É sobre não desligar da vida quando tudo à volta parece em modo avião.
Vivemos num mundo onde toda a gente parece saber tudo, mas ninguém sabe nada ao certo. Onde toda a gente fala alto, mas quase ninguém diz algo que realmente toque. Onde mostramos sorrisos nas fotos, mas guardamos tempestades nos bolsos.
E é por isso que eu não sabia escrever poemas de amor. Porque o amor hoje é outra coisa. É mandar mensagem a perguntar “chegaste bem?”. É ouvir alguém dizer “estou cansado” e perceber que não é do dia, é da vida. É ficar, mesmo quando o mundo inteiro está a pedir para ir embora. É ter coragem de ser verdadeiro num tempo em que toda a gente tem medo de sentir.
A verdade é que crescemos a achar que amor era fogo de artifício, mas afinal é mais tipo candeeiro de mesa: não ilumina a cidade inteira, mas impede que fiquemos às escuras.
E nós, andamos todos a tentar decifrar este puzzle gigante, onde as peças mudam todos os dias. Tentamos ser fortes, produtivos, impecáveis, mas às vezes só queríamos ser humanos sem pedir desculpa.
A realidade actual é dura, mas não é o fim. É o início de qualquer coisa que ainda estamos a aprender a nomear. E talvez seja isso o tal poema de amor que eu não sabia escrever: um texto que não fala de príncipes nem princesas, mas de pessoas reais, com medos reais, a tentar viver uma vida que não vem com manual de instruções.
Se isto tocar alguém, se fizer alguém respirar fundo, se fizer alguém sentir-se menos sozinho, então pronto, talvez, sem dar conta, eu tenha finalmente escrito um poema de amor.

— Filipe de Luar

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