Há momentos em que as palavras parecem pequenas demais para agradecer tudo aquilo que uma pessoa nos deu.
Este é um deles.
Cristiano Ronaldo deixou o estágio da Seleção. E, independentemente daquilo que aconteceu nos bastidores, das palavras que foram ditas, das decisões tomadas ou das versões que ainda faltam conhecer, há uma coisa que ninguém pode apagar: tudo aquilo que Cristiano Ronaldo deu a Portugal.
Antes de qualquer discussão, antes de qualquer polémica e antes de qualquer julgamento, existe uma história.
Uma história que começou há mais de vinte anos.
Um miúdo entrou na Seleção portuguesa com talento, sonhos e uma ambição que talvez, naquela altura, poucos conseguissem imaginar até onde o levaria. E nós vimos tudo.
Vimos Cristiano crescer. Vimos as primeiras lágrimas. Vimos as primeiras derrotas. Vimos os golos. Vimos as críticas. Vimos os momentos em que parecia carregar Portugal inteiro às costas. Vimos também os momentos em que caiu. E vimos sempre uma coisa que nunca desapareceu: a vontade de voltar a tentar.
Cristiano Ronaldo não foi apenas um jogador que vestiu a camisola de Portugal.
Durante mais de duas décadas, ele fez parte da nossa vida. Para muitos portugueses, é impossível falar da Seleção sem falar de Ronaldo. Há crianças que cresceram a vê-lo jogar. Há adultos que acompanharam praticamente toda a sua carreira. Há pessoas que associam determinados Mundiais, determinados Europeus, determinados golos e determinadas noites àquele número 7.
Ele esteve lá. Em 2004. Em 2006. Em 2008. Em 2010. Em 2012. Em 2014. Em 2016. Em 2018. Em 2021. Em 2022. Em 2024. E até 2026. Sempre com a camisola de Portugal. Sempre com o peso de milhões de pessoas a olhar para ele. E talvez só agora consigamos perceber verdadeiramente o tamanho dessa responsabilidade. Porque representar Portugal uma vez é uma honra. Representá-lo durante mais de vinte anos é uma coisa completamente diferente.
Ronaldo deu-nos noites que nunca vamos esquecer. Deu-nos golos. Deu-nos lágrimas. Deu-nos sofrimento. Deu-nos discussões. Deu-nos esperança. E, acima de tudo, deu-nos momentos de felicidade.
Em 2016, quando Portugal se tornou campeão europeu, aquela taça não foi apenas de uma equipa. Foi uma conquista que mudou a relação de muitos portugueses com a Seleção. E Ronaldo estava no centro daquela história. Mesmo lesionado. Mesmo fora do campo durante grande parte da final. Mesmo a sofrer como nós. Talvez aquela imagem dele junto à linha, a tentar continuar a orientar os companheiros apesar da lesão, diga mais sobre o seu percurso na Seleção do que muitos golos. Porque Ronaldo nunca foi apenas aquilo que fazia com a bola. Foi também aquilo que representou.
Foi liderança. Foi ambição. Foi exigência. Foi emoção. Foi a vontade de nunca aceitar que Portugal tinha de ser inferior a alguém.
Depois veio 2019. Outra taça. Depois 2025. Outra vez campeão pela Seleção. E, aos 40 anos, Ronaldo ainda estava lá. Ainda marcava. Ainda lutava. Ainda queria ganhar.
É difícil explicar a dimensão disto a quem olha apenas para os números. Porque os números são extraordinários. Mas a memória é maior. O golo contra a Espanha. O hat-trick contra a Espanha. Os golos contra a Hungria. Aquela noite contra a Suécia. O livre contra a Espanha. As lágrimas depois de perder. As lágrimas depois de ganhar. As mãos na cabeça. Os braços levantados. O grito. O “Siiiiuu”. Tudo isso faz parte de uma geração. Faz parte da nossa memória coletiva. Por isso, quando agora vemos Ronaldo abandonar um estágio da Seleção, custa. Custa porque não estamos habituados a imaginar Portugal sem ele. Mas também porque sabemos que, um dia, inevitavelmente, isso vai acontecer. E talvez esse seja o lado mais difícil de aceitar. Não há ninguém que consiga parar o tempo. Nem Cristiano Ronaldo.
A questão que agora se coloca não é apenas saber o que aconteceu entre Ronaldo e Jorge Jesus.
Essa resposta pertence aos envolvidos e, como o próprio Ronaldo disse, talvez seja conhecida mais tarde.
Ele disse que “a seu tempo” contará a verdade. E devemos respeitar isso. Não precisamos de escolher imediatamente um lado. Não precisamos de transformar uma situação complicada numa guerra. Nem precisamos de apagar tudo aquilo que aconteceu antes por causa de um momento difícil. Porque uma história de mais de vinte anos não pode ser resumida a um estágio. Não pode ser resumida a uma discussão. Não pode ser resumida a um banco de suplentes. E muito menos pode ser resumida à forma como termina.
A história de Cristiano Ronaldo na Seleção é muito maior do que este momento. Se esta for uma das últimas páginas, então devemos ter memória. Devemos lembrar-nos do princípio. Do miúdo que chegou. Do jogador que cresceu. Do capitão que assumiu responsabilidades. Do homem que chorou depois das derrotas. Do jogador que voltou depois das críticas. Do capitão que levantou troféus. Do português que levou o nome do nosso país aos quatro cantos do mundo.
Portugal deu-lhe uma camisola. Ele devolveu-nos uma história. E uma história que ficará para sempre. Talvez daqui a alguns anos, quando Ronaldo já não jogar, quando o número 7 tiver outro dono e quando uma nova geração estiver a representar Portugal, olhemos para trás e percebamos ainda melhor o que vivemos.
Vamos perceber que tivemos o privilégio de assistir, durante mais de duas décadas, a uma carreira que dificilmente voltará a repetir-se. Vamos lembrar-nos de onde estávamos quando marcou aquele golo. Com quem estávamos. O que sentimos. Onde vimos aquele jogo. Vamos lembrar-nos das vitórias. Mas também das derrotas. Porque uma carreira não é feita apenas de troféus. É feita de tudo aquilo que se vive pelo caminho. E Cristiano Ronaldo viveu tudo com Portugal.
Por isso, independentemente do que acontecer daqui para a frente, existe uma palavra que não pode faltar.
Obrigado.
Obrigado pelos golos.
Obrigado pelas vitórias.
Obrigado pelas lágrimas.
Obrigado pelas noites em que nos fizeste acreditar.
Obrigado pelas noites em que nos fizeste sofrer.
Obrigado por nunca teres tratado Portugal como apenas mais uma camisola.
Obrigado por teres levado o nome do nosso país contigo para onde quer que tenhas ido.
Obrigado por nos teres dado a oportunidade de dizer que vimos jogar Cristiano Ronaldo.
E, sobretudo, obrigado por teres estado lá durante mais de vinte anos.
Se ainda houver mais capítulos, estaremos cá para os viver.
Se estiver a aproximar-se o último capítulo, estaremos cá para o recordar. Porque uma coisa ninguém pode tirar: Cristiano Ronaldo já faz parte da história de Portugal. E essa história não termina com uma saída de um estágio. Não termina com uma discussão. Não termina com uma convocatória. Não termina com um último jogo.
Fica.
Fica nos troféus.
Fica nos recordes.
Fica nas fotografias.
Fica nas memórias.
Fica nas crianças que começaram a jogar futebol porque um dia viram o número 7 correr com a camisola das quinas.
E fica em todos nós que, durante tantos anos, parámos para ver Portugal jogar porque sabíamos que, enquanto Cristiano estivesse em campo, alguma coisa podia acontecer.
Por tudo isso, Cristiano, obrigado.
Obrigado por tudo o que deste a Portugal.
E, aconteça o que acontecer daqui para a frente, nunca te esqueças de uma coisa: antes de seres uma lenda do futebol, foste um português a vestir a camisola de Portugal.
E nós tivemos a sorte de estar cá para ver.
— Filipe de Luar

Deixe um comentário