A vida não é justa.
Há pessoas boas que passam por coisas que não mereciam. Há quem faça tudo certo e, mesmo assim, perca. Há quem dê tudo e receba pouco. E há quem erre, magoe, fuja às consequências e pareça seguir em frente como se nada tivesse acontecido.
É difícil aceitar. Porque, no fundo, existe uma ideia que aprendemos cedo: se fizermos o bem, a vida há de devolver-nos o bem. Se formos honestos, leais e corretos, as coisas acabarão por correr bem, mas a vida não funciona assim. A vida não faz contas dessa maneira.
Nem sempre o esforço é recompensado. Nem sempre a pessoa certa aparece na altura certa. Nem sempre uma relação termina porque alguém fez alguma coisa errada. Às vezes, termina porque duas pessoas deixaram de conseguir caminhar na mesma direção e isso dói. Dói porque gostaríamos que existisse uma espécie de justiça invisível a pôr tudo no lugar, mas há uma coisa que a vida faz, mesmo quando parece injusta: mostra. Mostra quem fica quando é difícil. Mostra quem desaparece quando deixa de precisar. Mostra o que realmente importa quando aquilo que parecia seguro deixa de ser. Mostra quem somos quando já não podemos esconder-nos atrás de desculpas.
É por isso que a vida pode não ser justa, mas é honesta.
Não promete que tudo vai correr bem. Não garante que vamos receber aquilo que damos. Não impede perdas, desilusões ou despedidas, mas mais cedo ou mais tarde, revela as coisas como elas são e talvez seja essa a parte que custa mais aceitar.
Nem tudo o que perdemos era para ficar. Nem tudo o que desejamos nos faria bem. Nem todas as portas fechadas são castigo. Algumas são apenas a vida a impedir-nos de continuar num lugar onde já não devíamos estar.
Não é preciso fingir que está tudo bem.
Há dias em que custa. Há injustiças que deixam marcas. Há perguntas que ficam sem resposta e está tudo bem admitir isso.
Aceitar que a vida não é justa não significa desistir dela. Significa parar de esperar que ela seja aquilo que nunca prometeu ser.
Porque, quando deixamos de exigir que tudo seja justo, começamos a prestar mais atenção ao que é verdadeiro e talvez seja aí que alguma coisa muda.
A vida pode não dar a cada um aquilo que merece. Mas, no fim, quase sempre acaba por mostrar aquilo que é.
— Filipe de Luar

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