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Ouvir a Vida

A vida fala. Sempre falou. O problema é que às vezes o barulho cá dentro faz mais eco do que tudo o que está lá fora. E quando isso acontece, a vida não deixa de dar sinais, nós é que deixamos de os ouvir.
Há dias em que tudo parece confuso, mas a verdade é que a vida raramente é confusa. Nós é que complicamos. Ignoramos aquele desconforto que aparece do nada. Fingimos que não vimos aquela coincidência estranha. Passamos por cima daquela sensação que diz “isto não é por aqui”. A vida tenta avisar, mas nós seguimos como se soubéssemos sempre melhor e depois há momentos em que a vida fala alto. Mesmo alto. Aquele erro repetido. Aquele cansaço que não passa. Aquele encontro que muda o rumo. Aquele silêncio que pesa. A vida não grita para nos assustar, grita porque já tentou sussurrar e não resultou.
O mais curioso é que, quando finalmente paramos para ouvir, percebemos que a vida não estava a tentar complicar nada. Estava só a apontar o caminho. A mostrar o que já sabíamos mas não queríamos admitir. A vida fala através de tudo: pessoas, pausas, dores, alegrias, perdas, ganhos, atrasos, avanços. Fala até quando parece que não está a acontecer nada.
Ouvir a vida não é um talento. É uma prática. É ficar atento ao que mexe cá dentro quando algo mexe lá fora. É reparar no que se repete. É notar no que incomoda. É aceitar que às vezes o que parece pequeno é, afinal, o sinal mais claro.
A vida fala. E quando finalmente ouvimos, tudo encaixa de uma forma quase irritante. Como se a resposta estivesse sempre ali, à espera que deixássemos de fugir.
A vida não complica, só insiste. E o que insiste, quase sempre, é verdade.

— Filipe de Luar

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