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Esquinas da vida

Há momentos que nos apanham na curva. O meu aconteceu numa esquina apertada, numa rua onde passo todos os dias sem pensar. Vinha distraído, a cabeça cheia de planos, quando quase choquei com um senhor que caminhava devagar, com um saco de compras na mão. Ele sorriu, pediu desculpa e disse: “As esquinas da vida são assim… só nos acordam quando viramos depressa demais.” Fiquei ali parado. Não pela frase, mas pelo que ela me obrigou a ver.
A verdade é que eu andava a virar esquinas sem olhar: decisões apressadas, respostas automáticas, compromissos assumidos por reflexo. A vida empurrava, eu seguia. E naquele encontro simples, percebi que as esquinas não são obstáculos, são avisos.
Avisos de que algo precisa de atenção.
Avisos de que estás a avançar rápido demais.
Avisos de que talvez seja hora de ajustar a direção.
Nesse dia, fiz algo que nunca faço: abrandei. Observei a rua, o ritmo das pessoas, o meu próprio corpo. E percebi três coisas que mudaram a forma como tomo decisões:
As esquinas revelam, mostram o que tens ignorado, aquilo que precisa de ser visto agora.
As esquinas pedem pausa, porque só quando abrandas consegues perceber se estás a virar para o lado certo.
As esquinas corrigem rotas, pequenas mudanças de direção evitam grandes quedas mais à frente.
O mais curioso é que, desde esse dia, comecei a notar outras esquinas: conversas adiadas, sinais de cansaço, oportunidades que eu empurrava para “depois”. E percebi que a vida não nos avisa com alarmes, avisa-nos com pequenos encontros, pequenas travagens, pequenos choques que nos obrigam a olhar.

— Filipe de Luar

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