Há instantes que te travam o passo, não por medo, mas por verdade.
O meu aconteceu numa estrada larga, ao fim da tarde, quando o céu parecia maior do que tudo e a terra parecia chamar-me para ficar. Fiquei ali parado, com a sensação nítida de que estava a viver dividido entre aquilo que queria e aquilo que tinha assumido por hábito.
Durante muito tempo, tentei ser duas pessoas ao mesmo tempo: a que procura estabilidade e a que precisa de horizonte. A que cumpre, organiza e segura tudo… e a que quer arriscar, experimentar, crescer.
E a verdade é que, sem perceber, eu vivia sempre a meio, nunca totalmente firme, nunca totalmente livre.
Nesse dia, vi uma cena simples que me reorganizou por dentro.
Um homem estacionou o carro, saiu, olhou o céu durante alguns segundos e sorriu sozinho, como quem encontra uma resposta sem palavras. Depois entrou novamente no carro e seguiu caminho.
Aquela pausa parecia uma decisão. Parecia alguém que tinha aprendido a ouvir-se antes de avançar.
Foi isso que fiz. Parei. Respirei. E percebi que a vida não se resolve escolhendo céu ou terra. Resolve-se percebendo o que te está a puxar e o que te está a segurar e o que isso diz sobre ti agora.
A partir desse momento, comecei a prestar atenção aos sinais pequenos. O desconforto que aparece quando estou a viver contra mim, a leveza que surge quando escolho algo que me aproxima da pessoa que quero ser, a clareza que nasce quando paro antes de decidir. Não precisei de listas. Precisei de presença.
O mais prático que aprendi foi isto. Quando te sentes dividido, não escolhas logo. Primeiro pára. Porque é nesse intervalo que percebes o que é verdade e a verdade costuma ser simples, mesmo quando é difícil.
— Filipe de Luar

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