Há momentos que parecem pequenos demais para mudar uma vida, até acontecerem.
O meu foi numa manhã banal, quando percebi que estava a viver em piloto automático. Acordar, trabalhar, responder, agradar. Sem pensar. Sem escolher. Sem respirar por mim.
Nesse dia, fiz algo simples: desliguei o telemóvel durante uma hora. Só uma hora. E foi suficiente para revelar uma verdade que eu andava a evitar.
Naquele silêncio, percebi que a maior prisão não eram as expectativas dos outros, eram as minhas. A forma como me encolhia para caber. A maneira como dizia “sim” para não desiludir. A tendência de pedir desculpa por existir com vontade própria.
A liberdade revela.
Revela o que te falta quando deixas de correr.
Revela o que te dói quando finalmente páras.
Revela o que te chama quando deixas espaço para ouvir.
Nessa hora, percebi que a liberdade não é um salto dramático. É um ajuste. Um gesto. Uma decisão pequena que muda o rumo. É escolher-te num detalhe. É dizer “agora não”. É fechar uma porta que já devia ter sido fechada. É abrir outra que sempre te assustou.
A liberdade revela porque te obriga a olhar para ti sem ruído. E quando o ruído desaparece, a verdade aparece, mesmo que não gostes dela.
O mais inesperado?
A liberdade não chega quando o mundo te solta. Chega quando tu deixas de te agarrar ao que já não és.
— Filipe de Luar

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