Há coisas que só percebemos quando ficam por dizer. E foi isso que lhe aconteceu com uma carta que nunca chegou a sair das mãos.
Ele escreveu-a num impulso. Frases curtas. Sinceras. Daquelas que só aparecem quando a verdade finalmente empurra. Não era uma carta bonita. Era uma carta honesta.
Contava o que sentiu. O que falhou. O que queria ter dito antes. E, sobretudo, aquilo que nunca teve coragem de admitir, que certas pessoas marcam mais na ausência do que na presença.
Quando terminou, dobrou o papel. Guardou-o no bolso. E ficou ali, sentado, a olhar para nada. O inesperado foi perceber que a carta não era para ela, era para ele. Era a primeira vez que dizia a si próprio aquilo que andava a evitar.
Durante dias, carregou aquela carta como quem carrega um espelho. Sempre ali. Sempre a lembrar. Sempre a mostrar o que ainda precisava de resolver.
E foi aí que encontrou o valor prático da carta não enviada. Ela não muda o outro. Muda-te a ti. Mostra-te o que sentes. Mostra-te o que escondes. Mostra-te o que ainda te prende.
Um dia, abriu o papel outra vez. Leu tudo. Respirou fundo. E rasgou. Não por raiva, mas por libertação. Porque percebeu que a carta já tinha cumprido o seu propósito que foi dar-lhe clareza.
A partir desse momento, deixou de escrever para quem não estava. Começou a escrever para quem precisava: ele próprio. E, devagar, a vida ficou mais leve. Não por ter enviado a carta. Mas por ter aprendido a dizer a verdade, mesmo que seja só para si.
No fim, percebeu isto: a carta que não envias é a conversa que finalmente tens contigo.
— Filipe de Luar

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