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Saudade não

Disse‑me isto sem tremer. “Não me fales de saudade.” E eu percebi logo que aquela frase vinha de um lugar onde as palavras chegam só depois da dor.
Porque a saudade não é bonita. Não é poesia. Não é aquela coisa romântica que as pessoas gostam de publicar. A saudade, quando é real, arranca-te pedaços. E deixa-te a caminhar com buracos que ninguém vê.
Lembro-me dessa conversa como se tivesse acontecido agora. Ela estava sentada, mãos quietas, olhar firme. E contou-me uma história simples, humana, inesperada. Durante anos, viveu rodeada de pessoas que confundiam presença com disponibilidade. Gente que aparecia quando queria e desaparecia quando lhe dava jeito. Gente que dizia “tenho saudades” mas nunca tinha tempo.
Até que um dia ela percebeu o óbvio. A saudade deles era confortável. A dela era cara.
E foi aí que ela disse basta. Não porque deixou de sentir, mas porque deixou de aceitar sentir sozinha. Decidiu que não queria mais saudades que só existiam na boca dos outros. Queria presença. Queria verdade. Queria gente que fica, não gente que volta quando se lembra.
O mais inesperado? Quando ela parou de aceitar saudades vazias, começou a receber presenças inteiras. Porque às vezes, o que afasta a saudade não é o tempo. É o limite.
E foi aí que percebi o valor prático desta história:
A saudade não é sinal de amor.
É sinal de ausência.
E tu mereces mais do que ausências bem escritas.

— Filipe de Luar

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