A minha passagem para o mundo dos mortos não foi literal, foi um slow motion de desligar. Acordámos todos com notificações, corações a bater em likes e uma sensação estranha de que a vida real ficou em modo avião. Crescemos a trocar momentos por stories, a medir valor por visualizações e a acreditar que estar sempre online é sinónimo de estar vivo.
Há dias em que a cidade parece um cemitério de oportunidades: gente com talento, sonhos e medo, a trabalhar em empregos que não pagam a alma, a adiar conversas importantes porque “depois eu vejo”. A pressão é real — estudar, arranjar trabalho, pagar renda, parecer bem nas fotos — e ninguém nos deu um manual. O que sobra é um ruído constante que nos anestesia: scroll, scroll, scroll, até já não sabermos o que sentimos.
Mas a passagem também é escolha. Passar para o mundo dos mortos é aceitar viver em piloto automático; recusar é acordar para o desconforto e para a coragem de dizer não. Não é preciso ser herói: é preciso ser honesto. Fala com quem te faz bem, desliga o telemóvel quando precisares, aprende a dizer que não sem te sentires culpado. Pequenas revoltas diárias salvam mais do que um like.
A realidade actual é crua: desigualdade, ansiedade, futuro incerto, e uma geração a tentar reinventar-se com pouco. Ainda assim, há beleza nas coisas simples, um café com um amigo, um projeto feito por amor, uma manhã sem pressa. Se partilharmos mais verdade e menos filtros, talvez a passagem deixe de ser para o mundo dos mortos e passe a ser um portal para algo vivo.
— Filipe de Luar

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