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O Livro que Nunca Escrevo

Há um livro que nunca escrevo. Mas ele existe, vive em mim, contigo, connosco. É feito de páginas que ninguém vê, mas que toda a gente sente.
É o livro onde guardo as coisas que não digo porque o mundo anda rápido demais para ouvir. Onde escrevo mentalmente as cenas que me marcam, os medos que finjo não ter, as vitórias que celebro em silêncio, e os sonhos que ainda não tive coragem de assumir em voz alta.
É o livro onde rabisco a realidade actual, esta mistura estranha de caos, pressa, expectativas e aquela vontade teimosa de sermos mais do que aquilo que o mundo espera.
E sabes o que é mais curioso? Todos nós temos um livro destes. Uns chamam-lhe “ansiedade”, outros “crescimento”, outros “vida a acontecer”. Mas no fundo, é o mesmo: um livro que vamos escrevendo sem perceber.
A verdade é que crescemos a achar que a vida vem com instruções. Spoiler: não vem. E está tudo bem.
Estamos todos a tentar perceber como se vive num mundo que muda mais depressa do que conseguimos acompanhar. Tentamos ser fortes, mas às vezes só queríamos uma pausa. Tentamos ser felizes, mas às vezes só queremos respirar. Tentamos ser “alguém”, mas esquecemo-nos de que já somos.
O livro que não escrevo tem capítulos que doem, outros que curam, outros que me fazem rir sozinho no meio da rua. Tem páginas rasgadas, frases riscadas, ideias que nunca saíram do papel e outras que mudaram tudo.
E talvez, só talvez, um dia eu escreva este livro. Ou talvez não. Talvez ele exista apenas assim: vivido, sentido, improvisado.
Porque a verdade é esta: o livro que não escrevo é o livro que me escreve a mim. E escreve-te a ti também.
Se te identificaste, guarda isto. Se te tocou, partilha. Se te fez pensar, então já valeu a pena.

— Filipe de Luar

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