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Grito em Silêncio

No silêncio que me corta, sinto vozes a tremer nas pontas dos dedos. Choro porque não quero que elas me invadam. Grito porque não quero que elas me prendam. Nas minhas mãos ainda pulsa um amor que teima em não morrer, mesmo quando o frio e o medo se alinham como contas infinitas, como nãos que me perseguem sem descanso. São pegadas de sal, mágoa que arde e fere.
Vejo pássaros de olhos apagados, com lâminas no lugar das asas. Rasgam-me caminhos novos, devoram cicatrizes antigas, deixam horizontes secos, sem água, desde a alma até ao corpo. Eu, que tinha os braços abertos para a esperança, solto-os como quem larga fantasmas.
E então, nesse teu olhar negro suspenso na noite metálica, por um instante breve como a vida, sinto o peso de um véu violeta. Pressinto a foice a descer, afiada, como uma lua louca que rasga a madrugada e mata o meu dia. De mãos geladas, presas sobre um peito vazio, grito em vão. Mas grito. Porque às vezes é só isso que nos resta: gritar para não desaparecer.


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