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Sonhos no dia a dia

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Surge um breve sopro e tudo se inclina para o devaneio. Vejo ossos que reconhecem o frio da terra; esse contacto lembra-me que os sonhos têm corpo apenas enquanto os sentimos, depois dissolvem-se. Digo o essencial: os sonhos são aquilo que são, até serem outra coisa.
A princesa dorme; no silêncio do sono ela transforma-se. Cresce sem anunciar passos, aprende no abandono do corpo que repousa. Acordá‑la é um processo subtil: luz pela fresta, respiração que se regula, gestos pequenos que ensinam confiança. A transformação não é um acto súbito, é uma sucessão de micro‑acções.
O jovem príncipe descobre a vida entre objectos que são mestres discretos: brinquedos que ensinam ternura, livros que abrem espaço ao pensamento, pincéis que traçam possibilidades, papéis que guardam promessas. A sua formação é prática tanto quanto teórica: riscar uma tela, rasgar um papel, partilhar um jogo e essas acções finas constroem aptidões essenciais.
O pai‑deus surge como força prática que produz matéria onde antes havia ideia, contrariando a sua própria metafísica. Essa contradição revela humildade: até o absoluto se dobra às necessidades do dia a dia. Quando o divino se ocupa do concreto, aprendemos que a visão precisa de execução para existir.
Cercado de solidão e de presenças maiores, falo com esses deuses numa linguagem elevada que se cala na voz mas insiste na escrita para capturar o instante. Falo daquilo que interessa: felicidade, harmonia, respeito, confiança. Não são categorias vazias; são verbos que se exercitam no quotidiano.
Palavras como esperança, fé, acreditar, esperar e futuro repetem‑se como refrão porque insistimos em nomear antes de transformar. Essa repetição mostra a nossa resistência e a nossa necessidade: por um lado, o hábito de repetir; por outro, a força que nos impele a converter o nome em acto. A esperança volta sempre, como insistência saudável.
Imagino uma madrugada em que o planeta gira ao contrário. Talvez então os sonhos deixem de ser ecos e adquiram corpo; talvez a realidade, por sua vez, fragmente‑se e se dissolva num pesadelo que a nossa autoanálise consegue reduzir. Não é fuga: é hipótese de trabalho que nos lembra que a mudança começa quando aplicamos pensamento crítico às nossas narrativas.
O retrato familiar aparece emoldurado: amor que protege, dor que mancha, memórias que fixam a geografia íntima. Esse quadro é complexo e comum; reconhecer os contrastes permite agir com clareza e compostura. A postura profissional exige essa conjugação: visão para sonhar e método para realizar. A juventude traz a coragem de imaginar; a atitude profissional traz o rigor de concretizar.
No plano colectivo, quando a ideia atravessa o limiar do pensar e se torna palpável, surge o valor. Por isso, o discurso eficaz junta visão e método: visão para inventar, método para executar. A prática diária: decisões pequenas, conversas sinceras, rotinas sustentáveis, é o que transforma uma palavra numa trajectória.
Ó longo pássaro da vida, leva‑me nas tuas asas; dá‑me impulso para continuar a criar. Deus, não me deixes esquecer os sonhos no frio da terra; guarda‑me do conformismo. Sinto sono — um sono que não quer ceder, um sono que quer continuar a sonhar não como fuga, mas como laboratório de ideias que um dia poderão tomar a forma do real.

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