
Roubaram-nos o tempo, sem que déssemos conta. Os segundos transformaram-se em minutos apressados, os dias dissolveram-se como areia entre os dedos, e os anos passaram como folhas levadas pelo vento. Mas não foram apenas datas riscadas no calendário que nos tiraram; foram os sorrisos cúmplices, os beijos trocados no silêncio, os abraços que nos mantinham a salvo do mundo. Ficaram memórias dispersas, como pedaços de um sonho que nunca chegou a ser vivido por inteiro.
Lembro-me das noites em que o cansaço não nos vencia, em que preferíamos conversar até de madrugada a desperdiçar o tempo a dormir. Os nossos planos, tão bem desenhados, hoje não passam de sombras distantes. Levaram-me a tua voz, o teu toque, o brilho no olhar que fazia tudo valer a pena. E o que restou de nós? Apenas um vazio, um espaço que antes era preenchido por nós dois e agora é só silêncio e ausência.
Cada dia que passa sinto-me mais preso nesta saudade, como se estivesse encarcerado numa cela sem grades, mas da qual não consigo escapar. Pedi justiça, tentei encontrar sentido para tudo isto, mas ninguém ouviu. O caso foi arquivado, como se o amor pudesse ser apagado com um simples carimbo. Não fui eu quem cometeu este crime, mas sou eu quem paga a pena, carregando a dor de um amor interrompido.
Se era para ser assim, então que ao menos me deixassem ter-te ao meu lado nesta prisão. Porque a pior sentença não é a solidão, mas a certeza de que o tempo nos foi arrancado sem piedade, deixando apenas a saudade como corrente invisível a apertar-me o peito.
- Filipe Miguel
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