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Tempestades em Portugal

Nos últimos tempos, Portugal tem vivido dias estranhos. Dias de vento que uiva pelas janelas, chuva que não acaba, rios que transbordam, estradas cortadas, casas alagadas, gente com medo de perder o pouco que tem. Do Algarve ao Minho, do litoral ao interior, parece que o céu decidiu despejar tudo de uma vez.
Mas, no meio deste caos, também se tem visto outra coisa: pessoas. Pessoas a aparecer umas para as outras. Vizinhos que nunca tinham trocado mais do que um “bom dia” agora a ajudarem-se a tirar água das casas. Voluntários a distribuir comida, roupa, mantas. Bombeiros exaustos, mas a continuar. Técnicos, autarcas, equipas no terreno a tentar pôr luz onde só há escuridão. E isso, por muito cliché que pareça, é gigante.
Em Leiria, como noutros sítios, há ruas que conheces de olhos fechados e que agora parecem outra cidade. Há cafés onde costumas ir que ficaram cheios de água. Há escolas, garagens, armazéns, tudo virado do avesso. E não é só “notícia na televisão”: é a vida real de pessoas como tu, como eu, como os nossos pais, família e amigos.
A verdade é que nem tudo tem corrido bem. Há respostas que chegam tarde. Há famílias que ainda não sabem como vão recuperar. Há quem sinta que fala, fala, e ninguém lá em cima ouve. Há burocracias que não acompanham a urgência de quem perdeu casa, carro, memórias. Há quem esteja cansado de promessas e queira ver ação, não só discursos.
E é importante dizê-lo sem medo: há coisas que podiam e deviam ser melhores. Podíamos estar mais preparados. Podíamos ter planeado melhor as cidades, os rios, as margens, as florestas. Podíamos ter levado mais a sério os avisos sobre o clima, sobre o risco, sobre o futuro. Podíamos ter aprendido mais depressa com as tragédias anteriores.
Mas também há coisas que, honestamente, têm corrido bem. Os avisos chegam mais cedo. As pessoas estão mais informadas. As redes sociais, que às vezes só servem para drama e memes, têm sido usadas para partilhar alertas, pedir ajuda, organizar recolhas, encontrar quem precisa de apoio. Há equipas no terreno a dar tudo, muitas vezes sem descanso, para garantir que ninguém fica totalmente sozinho no meio da tempestade.
E tu, que estás a ler isto, podes achar que não tens grande poder no meio disto tudo. Mas tens mais do que pensas.
Podes: dar boleia a alguém que ficou sem carro;
partilhar informação útil em vez de espalhar pânico;
perguntar ao teu vizinho mais velho se precisa de alguma coisa;
ajudar numa recolha de bens; apoiar negócios locais que foram afetados;
ouvir quem está em baixo, sem julgar.
Não vais “salvar o mundo” sozinho, mas vais mudar o mundo de alguém. E isso já é muito.
Também é normal sentires-te meio perdido. Olhas à volta e vês: incêndios no verão, cheias no inverno, calor absurdo num dia, frio cortante no outro. Parece que o clima está em modo aleatório. E no meio disso tudo, ainda tens de estudar, trabalhar, pensar no futuro, fazer planos, fingir que está tudo bem.
Mas sabes? Não tens de fingir. Podes admitir que estás cansado, assustado, farto de ver notícias más. Podes dizer que não sabes bem o que vai ser daqui a uns anos. Podes sentir tudo isso e, mesmo assim, continuar a acreditar que vale a pena tentar.
Porque, apesar de tudo, há uma coisa que estas tempestades também mostraram: nós não somos só o que nos acontece. Somos o que fazemos com o que nos acontece.
Somos os miúdos que organizam angariações na escola. Somos os jovens que usam o Instagram e o TikTok para mobilizar, não só para entreter. Somos os que não se conformam com “é assim mesmo” e perguntam “porque é que não pode ser diferente?”. Somos os que vão votar, os que exigem políticas melhores para o clima, para o território, para as pessoas. Somos os que não aceitam que a palavra “normal” inclua perder casas todos os verões e invernos.
Portugal é mais do que imagens de ruas alagadas. É mais do que mapas com manchas vermelhas de alerta. É mais do que tragédias em rodapé de telejornal.
Portugal também é: a senhora que faz sopa a mais para dar a quem precisa;
o bombeiro que volta para casa às 5 da manhã e ainda sorri ao filho;
o jovem que passa a noite a carregar caixas num pavilhão municipal;
o amigo que manda mensagem só para perguntar: “Estás bem? Precisas de alguma coisa?”;
a comunidade que se junta para limpar, reconstruir, recomeçar.
E é aqui que entra a parte da esperança. Não aquela esperança vazia, de frase feita. Mas a esperança teimosa, aquela que insiste em ficar mesmo quando tudo parece dizer o contrário.
A esperança está: em cada telhado reparado;
em cada loja que volta a abrir;
em cada família que, mesmo com medo, decide recomeçar;
em cada jovem que olha para isto tudo e pensa: “Eu quero fazer diferente. Eu vou fazer diferente.”
Se chegaste até aqui neste texto, leva isto contigo: As tempestades são reais. Os estragos são reais. A dor é real. Mas a nossa capacidade de cuidar uns dos outros também é. E isso não se mede em milímetros de chuva, nem em rajadas de vento. Mede-se em gestos.
Partilha este texto com alguém que esteja a precisar de um bocadinho de fé nas pessoas. Com alguém que esteja a achar que está tudo perdido. Com alguém que, como tu, sente que o mundo está meio ao contrário, mas ainda assim não quer desistir.
Porque, no fim do dia, é isto:
As tempestades passam.
O que fica é o que fazemos enquanto elas duram.
E aí, Portugal e tu têm mostrado que o coração ainda está no sítio certo.

— Filipe de Luar

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