O ascensor sobe em silêncio, as suas engrenagens a trabalhar com uma suavidade mecânica. Ouço o som subtil das ripas de madeira a ranger, como se a própria estrutura estivesse a respirar. O ar é denso, impregnado de um negrume ameno, quase envolvente, como um abraço que me envolve à medida que subo. A luz do corredor filtra-se através das aberturas, criando um jogo de sombras que dança ao meu redor, enquanto me deixo levar por esta quimera que é a vida.
A cada andar, sinto a ausência do que poderia ser. A vida parece vaguear pelos degraus, uma presença etérea que não se revela. O ascensor, fiel ao seu percurso, leva-me para cima e para baixo, como um ciclo sem fim, soterrando-se na elevação da viagem. Ao chegar ao topo, onde tudo parece vazio, percebo que, tal como abaixo, o que encontro é parte alguma.
O vento quente que entra pela porta entreaberta é um arrepio que percorre a minha pele, um contraste entre o calor do ambiente e a frieza do metal à minha volta. É como se o destino estivesse a mover-se à minha volta, enquanto eu, perdido no momento, me sinto como um espectador, alguém que não encontrou ainda o seu lugar nesta história.
- Filipe Miguel

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